Parabéns pra você
Martha Medeiros
Adora fazer aniversário. Mesmo os que dizem que não gostam, no fundo também devem sentir um certo prazer de ter um dia pra chamar de seu. Aniversário é bom pelos telefonemas, abraços, e-mails, é bom quando tem festa, é bom quando rola apenas um brinde, é bom até no silêncio e na solidão, porque ao menos no silêncio e na solidão você ficará livre da única praga dos aniversários: o parabéns pra você.
Eu preferiria passar o dia inteiro ouvindo Bruno e Marrone, ou qualquer outra coisa, do que a tenebrosa. Mesmo crianças de sete anos, que deveriam curtir a tal canção, já trataram de detonar a letra original. “Parabéns pra você/ eu só vim pra comer/ e o presente que é bom/ esqueci de trazer”. Flores de mal-educados, mas criativos.
Ok, crianças são crianças, podem tudo, viva a descontração infantil. O problema são os adultos. Não há versões bem-humoradas de parabéns para adultos. Adultos têm que cantar com todos os esses e erres. E sorrindo. E batendo palmas.
Não é uma cruz? Um executivo está de terno e gravata, dando duro no escritório, quando alguém bate à sua porta e chama: Sr. Raul, o menino do almoxarifado está de aniversário, a gente fez uma vaquinha e comprou um bolinho, estamos apenas esperando o senhor para cantar o parabéns. O Sr. Raul tem duas alternativas: ou não levanta da cadeira e assim incrementa a má fama que todo chefe tem, ou vai dar um abraço no rapaz e mostrar para todos os funcionários que é um patrão camarada. O Sr. Raul chegou gente!
Parabéns pra você, nesta data querida... Aquela animação que se conhece.
Ou então parabéns no meio do restaurante. Todo mundo já festejou em restaurante uma vez na vida, mas se você estiver realmente entre amigos, eles vão pular a parte do parabéns. Claro que vão, ou você festeja com arquirrivais?
Durante uma festa. O pessoal está dançando, bebendo, se divertindo, aí de repente as luzes se acendem, o DJ para tudo e lá vem ele, o bolo, o famigerado, o engordante, enquanto todos começam cantar à capela: parabéns pra você... Metade dos convidados só mexe a boca, torcendo para que a tortura seja breve.
Tem coisa pior, claro que tem. Os carros de som, com mensagens cafonas ditas no meio da rua pra toda vizinhança ouvir. E tem coisa ainda muito pior, mas muito pior. Esquecerem do seu aniversário. Ninguém, ninguém lembra. E, no silêncio e na solidão, a tenebrosa ficar ressoando nos seus ouvidos. De cortar o coração. Ou os pulsos.
Domingo 24 de agosto de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.